Nos Acostumamos com a Violência Contra Mulher?

A reflexão aborda como a repetição de casos de violência contra a mulher tem reduzido o impacto social dessas notícias. O texto questiona a normalização da violência, o silêncio das vítimas, a subnotificação das denúncias e a atuação insuficiente das instituições públicas diante de um problema estrutural e recorrente.

Dia Típico, em uma conversa trivial no salão de beleza, ouço o seguinte comentário: “-Viu que mais uma mulher sofreu tentativa de assassinato por parte do marido?”, eu já sabia daquela notícia, havia lido uns três à cinco dias antes, e confesso com vergonha agora, que no momento não dei a devida importância, mas o fato de não dar a devida importância não era por ser alguém fria ou que não consegue se colocar no lugar de outro, e ouvindo aquela notícia no salão, de maneira tão corriqueira, refleti: porque isso não nos choca mais?.

               Semanas antes, todos ficamos impactados com a notícia e o vídeo do crime sobre Juliana Garcia dos Santos, que foi agredida pelo namorado com quarenta socos, tendo que passar por uma cirurgia para reconstrução da face, o impacto da notícia nas redes sociais e na mídia foi alto, mas alguns dias depois, mulheres que passaram pela mesma violência que Juliana, não tiveram a mesma repercussão, e volto com a pergunta realizada no primeiro parágrafo: por que não chocou de novo?

               Infelizmente, me levo a pensar que não tenha nos chocado novamente, porque acabamos nos acostumando, primeiro ficamos surpresos e indignados, ouvimos ou vemos algum fato perto de nós, e prontamente fazemos a denúncia, de repente oferecemos ajuda para a vítima, mas após um tempo, quando ocorrem repetidas vezes, acabamos confundindo frequência com normalidade, afina, notícias como essas não são incomuns, apesar dos números de 2025 terem sido menores comparados com 2024, não deixaram de ocorrer consideravelmente.

               E é impossível não pensar, se a vítima não acaba fazendo a mesma racionalização daquilo que se vive, se conformando em se tornar apenas estatísticas, escolher muitas vezes permanecer dentro desse tipo de relacionamento por considerar que se livrar da dependência emocional, financeira que vive com o agressor é inviável, somente no Vale do Paraíba em 2025, foram contabilizados 265 casos de violência contra mulher, porém destes, somente 52 foram formalmente denunciados, isso comprova, o quanto o silêncio é cultural para essas mulheres, e o principal motivo para essas mulheres se manterem em silêncio, é o medo de serem desacreditadas no momento da denúncia, e eu seria altamente leviana se não abordasse aqui o principal motivo da polícia não acreditar nas denúncias, é que infelizmente, muitas mulheres prestam falsas denúncias, como forma de vingança e manipulação, não só afetando a vida dos homens que elas fazem de vítimas, mas das mulheres que são verdadeiras vítimas, apesar de não ser comprovado muitas vezes através de dados oficiais, não é incomum ouvirmos esse relato de agentes policiais e assistentes sociais. Diante dessa realidade e dessas motivações, tanto as vítimas, quanto nós mesmos, acabamos permanecendo nos chocando pontualmente, e ouvindo, ou lendo esse tipo de notícia e encarando como normalidade, já que o sistema jurídico encara com normalidade, os órgãos públicos encaram com normalidade, muitos políticos, eleitos, apenas se lembram dessa pauta a cada quatro anos, quando é viável e oportuno se lembrarem.

Compartilhar:

Mais publicações

Antique balance scale with a law book on one side and miniature people figures on the other

Nenhum ativismo deve se sobrepor ao Art. 5º da ConstituiçãoFederal

Representar ou impor? Este artigo analisa o conceito de ‘Trade-Off’ nas políticas públicas e questiona o monopólio do Movimento Negro sobre a identidade parda no Brasil. Com base em dados do Datafolha e bastidores da Lei de Cotas, o texto defende que nenhum ativismo pode ignorar o Artigo $5^{\circ}$ da Constituição nem as consequências reais para os grupos que afirma defender.

Não existe notícia boa no Brasil

A inédita rejeição de Jorge Messias ao STF quebrou um tabu de 132 anos no Senado. Mas não se iluda: a queda do homem do “termo de posse” não foi uma vitória da moralidade, e sim mais um acerto de contas do velho e sujo xadrez político de Brasília.

O Meme como Política: O Entretenimento é o Novo Ópio do Povo?Meme como politica

A política migrou para as redes sociais e se transformou em espetáculo. Entre memes, “lacradas” e busca por engajamento, como fica a verdadeira gestão pública e a fiscalização dos nossos representantes? Uma reflexão profunda sobre como o entretenimento se tornou a nova linguagem política e os riscos dessa mudança para as nossas cidades.

Envie-nos uma mensagem