As universidades são espaços que foram criados para o desenvolvimento do aprendizado e para a discussão e criação de novos conceitos que possam ajudar a humanidade, e esse conhecimento adquirido contribui para o aprendizado das novas gerações em um círculo virtuoso. Há um processo de descredibilização das universidades públicas, por meio da propagação de estereótipos do que seriam os “alunos da federal”, e discursos distorcidos de que “faculdade não dá dinheiro”.
De fato, existem alunos que veem as universidades como se fossem clubes, e que julgam aqueles que observam determinados assuntos de forma diferente da posição hegemônica nestes locais, são vistos com desprezo e até boicotados. Por outro lado, aqueles que dizem que “faculdade não dá dinheiro” desconsideram que a média salarial dos graduados é maior do que a dos que possuem o ensino médio. E que as faculdades não foram criadas para alguém “ganhar dinheiro”, mas para o desenvolvimento em uma via de mão dupla, onde você se desenvolve pessoalmente e ajuda a sociedade e a Academia por meio dos seus conhecimentos prévios, por conta da sua trajetória de vida e dos conhecimentos adquiridos, por meio do processo de formação.
Durante o meu processo de formação, passei por instituições públicas e particulares, sendo que, na maior parte do tempo, estive na educação pública. Tenho percebido, nesses últimos tempos, a construção de pensamentos hegemônicos, que não podem ser questionados. Os que questionam ganham rótulos negativos, em um processo de desqualificação. Construção de pensamentos hegemônicos sempre existiu nas universidades, mas sempre houve algum espaço para o debate e para o contraditório. Um pensamento que é hegemônico ontem, pode, após muitos debates, ser visto como obsoleto. E outros pensamentos hegemônicos podem ser confirmados, também, por meio de muitos debates.
É importante que se tenha a ideia de que pensamentos hegemônicos podem estar certos ou errados, e que eles podem ser questionados considerando a ciência e o contraditório. Observo que isso está se perdendo nas universidades públicas. Ainda existe o pensamento hegemônico birracialista nas universidades, onde quem não é branco é negro, e que os pardos seriam “negros de pele clara”, com origem nos Estados Unidos, questionado naquele país pelos pardos (mixed) norte-americanos.
Ele foi consolidado por acadêmicos brancos, negros e pardos que se declaram negros, sem observar a documentação histórica e o entendimento da população de que pardos são pessoas miscigenadas, e que não são negras e nem brancas. Os termos populares para a identificação das pessoas pardas, como “caboclo/caboco”, “mameluco”, “cafuzo”, “juçara”, “mulato”, “sarará”, “caiçara”, mostram o entendimento da População Parda sobre si e dos demais grupos étnico-raciais sobre ela.
À medida que a População Negra passou a ter algum espaço na Academia, ainda que eles sejam tão sub-representados nesse espaço quanto a População Parda, e pelo destaque de acadêmicos negros como Abdias do Nascimento e Kabengele Munanga, as questões negras passaram a ser discutidas nas universidades. Nessas discussões, criou-se o pensamento hegemônico de que pardos seriam negros, mas as pessoas pardas não foram ouvidas e essa linha passou a ser seguida na elaboração de políticas públicas antirracistas.
A expulsão da acadêmica Beatriz Bueno da Universidade Federal Fluminense mostra esse pensamento hegemônico, e o fechamento dos ambientes universitários públicos para o debate e para o contraditório. A sua atuação como ativista parda e a discussão sobre o conceito de Parditude na Academia incomodam aqueles que querem o status quo, que fizeram de tudo para dificultar a sua vida e os seus estudos dentro e fora dessa instituição.
A notícia ganhou destaque no dia 17 de janeiro de 2026, mas sabia de sua situação e de sua expulsão antes disso. Essa situação faz refletir a que ponto chegamos para que alguém, em um TCC, dissertação ou tese, tenha que seguir de forma linear o pensamento hegemônico para poder se graduar, ser mestre ou doutor. Vejo essa situação com profunda tristeza, tanto como alguém que sempre estimou as instituições educacionais e que entende como importantes para a formação do capital educacional humano, quanto como um homem pardo, ciente de suas origens europeias, indígenas e africanas.
A entrada da População Parda na Academia é recente, pois os pais dos acadêmicos pardos estavam lutando para terminar o primário, e não tinham condições para combater o pensamento acadêmico hegemônico que não aceita os pardos como eles são. Continuaremos, como ativistas pardos a buscar a inclusão das questões pardas na luta antirracista, e a buscar como meta, uma verdadeira igualdade racial, que está ainda distante em nosso país. E também continuaremos a defender as universidades públicas daqueles que usam situações pontuais para descredibilizar essas instituições. A despeito daqueles que querem a nossa desistência, estamos aqui e pardos são pardos.



