Há objetos que carregam em si a alma de um povo. quando vemos um Ankh comumente associado aos cetros dos faraós já lembramos do povo egipcio
Quando vemos uma cruz, é inevitável lembrar do cristianismo, ao ver qualquer um segurando uma Katana rapidamente os povos nipônicos
No Brasil, esse objeto é uma caneta acorrentada.
Aquela caneta presa por uma correntinha no balcão da lotérica, do banco, da repartição pública representa mais do que um simples instrumento de escrita. Um pequeno cilindro de plástico, latão e tinta, custando não mais que um real, mas que precisa estar amarrado como se fosse uma joia rara. Por quê? A resposta é tão óbvia que dói: porque, se não estiver presa, será roubada.
Não por necessidade. Não porque alguém não tenha um real para comprar sua própria caneta. Mas simplesmente porque pode. Porque “levar vantagem em tudo” virou lei não escrita, lei magna, como bem disse o jogador Gerson naquele comercial de cigarros em 1976. A frase era inocente, falava apenas de preço, mas viralizou, talvez nosso primeiro meme, e revelou algo profundo sobre quem somos.
Essa imoralidade não nasceu ontem. Veio nos navios junto com alguns portugueses que aqui aportaram, Muitos destes homens, abandonaram famílias inteiras do outro lado do Atlântico para buscar “frutos” nas terras recém-descobertas. A moralidade cristã ficou na Europa; aqui desembarcou algo mais primitivo, mais visceral. E isso não se decompôs com o tempo. Pelo contrário, amadureceu, enraizou-se, tornou-se cultura.
Criamos até uma indústria para nossa desonestidade: a indústria da caneta antifurto. Não produzimos chips, não dominamos semicondutores, não temos programa espacial robusto, mas temos, com certeza, tecnologia de ponta para impedir que roubem canetas de um real. É patético e revelador.
O brasileiro vive numa gangorra moral perversa: se não está enganando alguém, sente que está sendo enganado. É quase uma paranoia coletiva. E o mais irônico? Oitenta e três e meio por cento da população se declara cristã. Cristã, palavra que significa “pequeno Cristo”, criada em Antioquia no século I para designar aqueles que se pareciam com Jesus.
Mas onde está Cristo quando recebemos troco a mais e ficamos quietos? Onde está quando pisamos no dinheiro caído até o dono ir embora? Onde está no “gato” de energia, no pai que vai “comprar cigarro” e nunca mais volta, no influenciador que vende “tigrinho” prometendo riqueza fácil?
E onde está quando colocamos no topo das paradas musicais canções que glorificam exatamente aquilo que dizemos condenar? Quando transformamos em hinos nacionais letras que exaltam o crime, a objetificação, a traição, a violência? Veja o caso do funk “Shake de Oreia” do MC Oruam: milhões de visualizações, tocando em festas de família, em churrascos de domingo, crianças decorando letra por letra. E do que fala? De sexo explícito, de relações vazias, de uma visão de mundo onde tudo se resume ao prazer imediato e à ostentação.
Não se trata de censura ou moralismo barato. Trata-se de perceber a incoerência gritante: somos o mesmo povo que vai à igreja no domingo de manhã e à noite canta, dança e celebra exatamente o oposto daquilo que afirma acreditar. Transformamos a imoralidade em entretenimento, em cultura pop, em identidade. E pior: quem questiona é taxado de careta, de atrasado, de moralista hipócrita.
Mas a hipocrisia não está em questionar. Está em aplaudir a degradação e depois reclamar da decadência moral do país. Está em deixar que nossos filhos decorem letras que normalizam o crime e depois nos espantamos com a violência nas ruas. Está em fazer da imoralidade um produto de consumo e depois chorar pelas consequências.
“Ah, mas é o governo corrupto que nos empurra para isso”, dizem. E têm razão, parcialmente. Nossos governantes são corruptos, sim. Mas eles não caíram de paraquedas. São nossos. Eleitos por nós. Defendidos por nós quando convém.
Quando um governante diz que traficantes são vítimas dos usuários, e passamos pano, somos igualmente corruptos. Quando votam pela própria impunidade e concordamos, somos igualmente imorais. Quando um político profere blasfêmias, dizendo que Deus trouxe a seca para ele trazer a água, e defendemos “mas veja bem”. Quando vendemos nosso voto. Quando um pastor faz caixa dois. Quando o filho do presidente faz rachadinha. Quando um padre comete atos licenciosos. Quando um presidente grita obscenidades na comemoração da independência e nós aplaudimos, defendemos, justificamos, estamos todos no mesmo barco furado.
A caneta acorrentada é apenas o símbolo mais visível dessa falência moral. Embaixo, a base rouba a caneta por pura falta de caráter. Em cima, a elite usa a caneta para assinar contratos que roubam bilhões. Mesma essência, escalas diferentes.
E por que fazemos isso? Por que somos tão corruptos e propensos a prejudicar o outro? Bem, Platão nos explica isso em uma de suas maiores obras, “A República”. Nesta obra, ele descreve um debate entre Glauco e Sócrates, e Glauco conta a Sócrates a história de Giges e seu anel. A história conta sobre um pastor chamado Giges. Giges, um dia, enquanto cuidava de seu rebanho, houve um terremoto, e este terremoto abriu uma fenda no chão que revelava uma caverna. ele explora essa caverna e encontra uma espécie de cripta, onde ele encontra um gigante guerreiro morto e, em seu dedo, um anel de ouro. tomando este anel ele vai embora. Mais tarde, ele percebe que ao colocar este anel fica completamente invisível (um anel que dá poderes de invisibilidade, eu sei que você já viu isso). Ao descobrir isso, Giges usa o poder do anel para se satisfazer da forma mais animalesca e carnal possível. Após se satisfazer com todas as mulheres que desejou, ele parte para a cidade de Lídia, seduz a rainha e conspira para assassinar o rei e se tornar o novo governante. Qual a moral desta história de Glauco? O homem vai agir da forma mais imoral, mais perversa e cruel, tendo em vista a impunidade. Se tudo que ele fizer não acarretar consequências para ele, certamente ele fará o que há de pior. E vejam só, estamos no país da impunidade. Logo, nossa população vai agir sim da forma mais imoral possível.
Possuímos aqui no litoral o melhor exemplo disso, toda a temporada é a mesma coisa, as cidades ficam cheias, os prédios lotados, e em sua maioria, as pessoas que aqui temporariamente estão, não tem o menor cuidado com nossas cidades, sujam, depredam, desrespeitam os moradores, por quê? pelo fato de não receberem nenhum punição, e se quer colheram os frutos do seu caos, não são eles que irão limpar, não são eles que irão conviver aqui depois, temos uma cidade que será inundada de “Giges” pessoas que farão o pior, sem nenhuma consequência dos seus atos
E aqui chegamos ao ponto crucial: existe solução?
Existe, mas exige algo que parece ter se perdido neste país: coragem moral. Não a coragem de gritar nas redes sociais ou de defender cegamente seu político de estimação. Mas a coragem de olhar no espelho e reconhecer que o Brasil somos nós. Que a mudança não virá de Brasília, não virá de um salvador da pátria, não virá de uma revolução armada.
A mudança começa quando devolvemos o troco errado. Quando não pisamos no dinheiro do outro. Quando denunciamos o “gato” de energia. Quando paramos de comprar lenços de quem vende desespero. Quando pensamos duas vezes antes de celebrar aquilo que nos destrói. Quando exigimos dos nossos representantes o mesmo padrão moral que deveríamos exigir de nós mesmos.
O Brasil tem todos os recursos para ser grande: território, riquezas naturais, um povo criativo e resiliente. Mas continuaremos pequenos enquanto precisarmos acorrentar canetas. Porque o problema não está na caneta. Nunca esteve. O problema está em quem a rouba e em quem acha isso normal.
No fim, a missão de mudança não é coletiva. É individual. É minha, é sua, é de cada brasileiro que cansa de viver num país onde até a honestidade precisa estar acorrentada para não ser roubada.
Precisamos mudar, mudar o modo de agir e pensar, mudar o modo de votar, mudar nossas intenções e nossas admirações. Renovar nossa mentalidade, e não aceitar o sistema corrompido que vivemos
O Brasil só será livre, quando não precisarmos mais acorrentar suas canetas.



