É uma cena quase clássica e que se repete com frequência assustadora: você recebe um amigo ou parente de fora, a pessoa passeia pela cidade, elogia a localização privilegiada no coração do Vale do Paraíba, admira a carga histórica e o potencial econômico. E qual é a reação imediata do morador local? Um suspiro cansado seguido da frase: “Ah, mas você não mora aqui pra ver como isso é um buraco”.
Muitas vezes, quem vem de fora consegue enxergar um valor em Taubaté que nós mesmos, anestesiados pelo cotidiano, nos recusamos a ver. E é preciso colocar o dedo nessa ferida: existe uma cultura enraizada no taubateano de fazer propaganda negativa da própria casa.
Vamos deixar algo muito claro: criticar o serviço público, cobrar buracos tapados, exigir médicos nos postos de saúde e fiscalizar o dinheiro dos nossos impostos não é apenas saudável; é um pilar fundamental da democracia. Um cidadão que não cobra é um cidadão omisso. O problema começa quando essa cobrança cruza a fronteira da cidadania e se transforma em um esporte diário de difamação do próprio município. Falar mal de Taubaté para investidores, turistas e nas redes sociais de forma incessante e generalizada já não é uma crítica construtiva. É jogar contra o próprio patrimônio. É autossabotagem.
E a ironia mais amarga dessa história é que, enquanto o volume das reclamações nas ruas e na internet é ensurdecedor, a atitude prática para mudar o cenário é silenciosa. Quer um exemplo claro? Basta olharmos para os números das urnas nas eleições municipais de 2024.
Taubaté bateu um recorde extremamente amargo: foi a cidade campeã de abstenção em todo o Vale do Paraíba. No segundo turno, mais de 75.800 pessoas (impressionantes 31,24% de um eleitorado de quase 243 mil aptos) simplesmente não foram às urnas. No primeiro turno, a ausência já havia superado a casa dos 71 mil eleitores (29,27%). Somando-se a essa multidão invisível os milhares de votos brancos e nulos, configurou-se um cenário assustador de abandono do dever cívico.
Ou seja, na hora H, no momento mais importante que uma democracia oferece para que a população faça a diferença e troque quem não está entregando resultados, praticamente um terço da cidade prefere lavar as mãos. Fica evidente que muitos escolhem o conforto de reclamar no balcão da padaria ou nos grupos de WhatsApp do que assumir a responsabilidade de participar ativamente do futuro da cidade. Falar que a cidade está afundando é fácil; sair de casa em um domingo para tentar mudar o curso do barco exige esforço.
Se quisermos sair dessa espiral de pessimismo, precisamos olhar para exemplos de lugares que entenderam o valor da regionalização e do orgulho local. Pense em uma cidade como Nova Orleans, nos Estados Unidos. É um município que historicamente enfrenta problemas de infraestrutura severos, pobreza crônica e desastres naturais devastadores. Eles têm todos os motivos do mundo para reclamar de tudo. Mas o que a população de lá fez? Eles se agarraram à sua identidade de forma visceral.
Eles transformaram a sua música (o berço do jazz), a sua culinária e as suas tradições em uma marca mundial inabalável. O morador de Nova Orleans bate no peito com orgulho de onde veio. Essa “propaganda positiva” contagiante e esse bairrismo saudável impactam diretamente a economia. O orgulho atrai bilhões em turismo, cria um ambiente fértil para negócios locais, fortalece o comércio de bairro e, mais importante, gera uma coesão social absurda. Quando as pessoas amam a cidade, elas cuidam dela juntas.
Taubaté precisa urgentemente resgatar a sua “ânima”, a sua alma de cidade pioneira. Temos história, temos grandes indústrias, temos universidades, temos um povo batalhador e uma cultura riquíssima. Parar de fazer propaganda negativa não significa fechar os olhos para a corrupção ou para a incompetência dos governantes. Significa separar a má gestão da essência da cidade. Os prefeitos passam, os vereadores passam, mas Taubaté fica. E se nós, que vivemos aqui, não formos os primeiros a defender e a vender o potencial do nosso chão, ninguém mais fará isso por nós.



