O Meme como Política: O Entretenimento é o Novo Ópio do Povo?Meme como politica

A política migrou para as redes sociais e se transformou em espetáculo. Entre memes, "lacradas" e busca por engajamento, como fica a verdadeira gestão pública e a fiscalização dos nossos representantes? Uma reflexão profunda sobre como o entretenimento se tornou a nova linguagem política e os riscos dessa mudança para as nossas cidades.

Desde o momento em que a política migrou dos grandes meios de comunicação para a internet, ela começou a se mesclar com os elementos do ambiente digital, absorvendo em si os conteúdos e as linguagens do meio em questão. Nesta reflexão, quero mostrar como isso afetou a política local da sua cidade.

Vamos compreender como essas duas coisas se originaram e qual foi o resultado da sua fusão.

Lembro que, quando estava na escola, era um menino nerd e pobre também, o que fazia com que uma coisa servisse à outra. Devido às minhas inclinações nerd, eu não saía muito, o que facilitava as coisas, pois não gastava muito. Ao mesmo tempo, não tinha todos os bens de consumo que desejava. Quando meu pai, grande entusiasta de tecnologia, trazia algo para casa, aquilo já estava velho e obsoleto para o restante do mundo. Então, enquanto as pessoas já começavam a ter banda larga, eu começava a ter internet discada. A muito custo, eu navegava pelos fóruns e comunidades online, sempre após a meia-noite, pois era mais barato. E a dificuldade me fez desenvolver criatividade para lidar com os problemas.

Tinha meus 9 anos quando comecei a acessar a internet, e lá aprendi muita coisa, conheci muita coisa. Presenciei o alvorecer dos memes, das tirinhas e das imagens. As comunidades do Orkut, cujo único foco era compartilhar imagens engraçadas e gerar entretenimento. Vi o “FUUUuu” ser utilizado pela primeira vez em uma comunidade, o “Troll Face” aparecer quando alguém era alvo de uma chacota. Enfim, eu estava lá, e quando cheguei à internet, “era tudo mato”.

“Mas Emanuel, que raios isso tem a ver com política?” Calma, que eu vou chegar a algum lugar. Só me acompanhe.

Os memes e as redes sociais tinham como objetivo conectar pessoas, e as pessoas, mais especificamente os brasileiros, só queriam brincar e se entreter. Afinal, o Brasil atravessava uma crise (o Mensalão) nessa época. A internet era, portanto, um refúgio de humor e alegria.

Por outro lado, temos a política, e aí podemos ramificar o assunto para diversos tipos de pensamentos e definições. Tentemos, então, pincelar o que alguns pensadores diziam ser a política.

Podemos seguir o pensamento aristotélico do animal político, no qual a política não é uma escolha para o homem, mas uma necessidade. Quem vive fora da polis seria, segundo Aristóteles, ou um animal ou um deus. A política, para ele, era a ciência mais elevada, pois tinha como finalidade o bem comum.

Talvez possamos definir a política de forma mais hobbesiana. Para Thomas Hobbes, o ser humano no estado de natureza, ou seja, sem governo, é movido pelo egoísmo e pelo medo. A vida seria uma guerra de “todos contra todos”, tornando a existência, em suas palavras, “solitária, pobre, sórdida, brutal e curta”. A solução proposta era que os indivíduos fizessem um contrato social, cedendo sua liberdade a um soberano absoluto em troca de segurança e ordem.

Talvez devamos falar em termos mais à esquerda, como Marx concebia a política. Marx trouxe uma perspectiva distinta: para ele, a política não é autônoma, ela é determinada pela estrutura econômica da sociedade. O Estado, as leis e as instituições políticas são a “superestrutura” que serve aos interesses da classe dominante. Em sua concepção, toda a história humana é a história da luta de classes: senhores e escravos, nobres e servos, burgueses e proletários. A política burguesa, mesmo quando aparenta ser neutra ou democrática, é um instrumento de dominação de classe.

No entanto, no sentido mais elementar, política vem do grego polis (cidade-estado) e politiká (assuntos da cidade). Em sentido amplo, é toda atividade relacionada à administração da cidade e do Estado, bem como à eleição dos representantes que assim o farão.

E qual é o ponto desta reflexão? A partir da Jornada de Junho, as célebres manifestações de 2013 contra o aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus, a política adentrou a internet de fato. Lembro que influenciadores que jamais se manifestavam sobre política, e que tampouco entendiam do assunto, de repente estavam falando sobre a luta por direitos. Jogadores de Minecraft colocavam sua voz na disputa contra os aumentos injustos, comediantes faziam piadas e teciam suas críticas. Até durante um evento sediado pelo YouTube, para promover seus criadores de conteúdo, o assunto veio à tona e fez pauta com as manifestações. Com isso, houve um grande surto de pessoas na internet discorrendo sobre política.

Mas lembra que a internet era uma válvula de escape? Que as pessoas buscavam entretenimento? O que aconteceu, então?

A grande expressão da internet se mesclou de fato com a política. Memes e brincadeiras, piadas com tom de crítica, críticas em tom jocoso. Aquilo que era sério passou a ser tratado de forma cômica e despretensiosa. As pessoas perceberam que era divertido brincar e ridicularizar políticos, que sempre haveria um grupo-alvo e outro que riria da situação. Isso se arrastou até 2014, quando os grandes movimentos de rua surgiram e consolidaram o meme como linguagem política.

O tempo avança, políticas caem, políticos são eleitos, mas a linguagem permanece. O eleitor quer se divertir, quer meme, quer rir, e está disposto a conceder muitos likes e visualizações a quem lhe proporcionar isso.

Karl Marx dizia que “a religião é o ópio do povo”. Ao afirmar isso, ele queria ilustrar a ideia de que a religião alienava o indivíduo a uma esperança de algo por vir, distraindo-o da revolução. O proletariado, entorpecido pela religião, não refletia sobre a luta de classes, não combatia a burguesia, e a revolução não acontecia. Se Marx vivesse hoje, certamente diria que “o entretenimento é o ópio do povo”.

Fato é que hoje uma expressiva parcela dos políticos já está adaptada a essa nova linguagem. Com isso, emerge um fenômeno: os políticos locais, vereadores e prefeitos, perceberam, ao menos os mais sagazes, que fazer uma visita à UPA ou fiscalizar o prefeito que pode estar desviando verbas não é atrativo, não gera entretenimento.

Temos vereadores dispostos a ir a outras cidades e se envolver em brigas em universidades para gerar espetáculo e meme. Fazem caminhadas longas com gritos de ordem, repetem chavões para “lacrar” e gerar engajamento. Brigam nas redes sociais e fazem discursos amorfos, sem objetivo, com a única proposta de entreter.

O espetáculo e o show não são um problema em si. Nos dias atuais, são ferramentas legítimas da política. Porém, o trabalho político não pode se resumir a isso. O espetáculo político deve funcionar como uma fábula: tem fantasia, tem animal falando, mas no final há uma lição moral. Se o show dos nossos políticos influenciadores não culminar em algo concreto, é apenas palhaçada com dinheiro público.

Esse entretenimento, esse prazer das redes sociais, sobretudo na política, pode gerar consequências graves.

Aprecio a forma como Epicuro fala a respeito do prazer, e suas reflexões se aplicam ao entretenimento político. Hoje, os políticos alimentam em nós o prazer “cinético”, aquele ligado ao consumo de algo, uma necessidade sendo saciada. Quando os políticos geram conteúdo divertido sem o menor intento de pragmatismo, eles “matam” a fome de entretenimento de muitos. Mas Epicuro também discorre sobre o prazer consciente e o problema dos excessos, e as redes sociais os potencializaram à enésima potência. Passamos horas rolando o feed e rimos de todo tipo de futilidade. Achamos admirável quando um parlamentar quebra o decoro colocando uma peruca para fazer graça em um discurso que não leva a lugar algum. Aplaudimos as críticas mais esdrúxulas apenas porque têm uma roupagem de humor, e de um humor bastante precário, diga-se de passagem. Rimos e nos deleitamos com aqueles que levam milhares e milhões de reais do nosso dinheiro. E Epicuro também nos adverte que esses excessos podem acarretar danos.

O lado pernicioso disso é que a população se acostumou com o entretenimento político, e agora poucos se interessam por um político que elabore propostas e apresente um plano de governo consistente para melhorar o Brasil. Querem alguém que os entretenha, e se porventura esse político entregar alguma proposta relevante, isso acaba sendo um bônus, e não de fato o seu trabalho.

O resultado de tudo isso é que a política local se tornou algo enfadonho, pois não é todo dia, em toda cidade, que ocorre um acontecimento relevante, ou que em um debate os candidatos se atacam e se confrontam. Não: os candidatos estão lá, expondo suas ideias, por vezes boas, por vezes ruins. Alguns não têm o dom da oratória e são incapazes de contar uma piada ou dar uma “lacrada” no adversário político. Os grandes “astros” da política hoje são o ponto fora da curva, com uma tendência muito acentuada de mudança nas próximas eleições.

E assim retornamos à tese inicial: o entretenimento, aqui encarnado no meme, fez com que os políticos locais não sejam capazes de engajar pessoas, tornando toda eleição local algo esquecível. Vide a eleição de 2024, em que a esmagadora maioria das pessoas não tinha ideia do que estava acontecendo nas suas cidades, mas todos sabiam que o Marçal levou uma cadeirada, pois o espetáculo de lá era muito mais interessante.

Com tudo isso, deixo aqui minha singela sugestão: acompanhe o show, mas cobre propostas. O espetáculo se tornou parte da política e não pode mais ser ignorado. Os políticos farão seu show, irão “lacrar”, haverá piadinhas e vídeos virais. Mas haverá proposta? Haverá trabalho legislativo? Haverá fiscalização dos parlamentares? O espetáculo deve apontar para isso. Do contrário, estaremos colocando palhaços em posições de poder, que nos farão rir enquanto o mundo ri de nós.Caso contrário, teremos apenas palhaços em posições de poder, fazendo-nos rir enquanto o mundo ri de nós.

Compartilhar:

Mais publicações

Antique balance scale with a law book on one side and miniature people figures on the other

Nenhum ativismo deve se sobrepor ao Art. 5º da ConstituiçãoFederal

Representar ou impor? Este artigo analisa o conceito de ‘Trade-Off’ nas políticas públicas e questiona o monopólio do Movimento Negro sobre a identidade parda no Brasil. Com base em dados do Datafolha e bastidores da Lei de Cotas, o texto defende que nenhum ativismo pode ignorar o Artigo $5^{\circ}$ da Constituição nem as consequências reais para os grupos que afirma defender.

Não existe notícia boa no Brasil

A inédita rejeição de Jorge Messias ao STF quebrou um tabu de 132 anos no Senado. Mas não se iluda: a queda do homem do “termo de posse” não foi uma vitória da moralidade, e sim mais um acerto de contas do velho e sujo xadrez político de Brasília.

O Novo Coronelismo: Entre o Cabresto Digital e Assistencial

O coronelismo não morreu; ele se atualizou. Conheça a anatomia do ‘cabresto moderno’ em 2026: uma análise profunda sobre como o assistencialismo estatal e o populismo digital de figuras como Nikolas Ferreira mantêm o eleitorado cativo, enquanto o voto de opinião tenta romper o ciclo da mediocridade.”

Envie-nos uma mensagem