Ao olhar para as ruas de Ribeirão Preto neste último domingo (25), vimos uma cidade que funciona. O asfalto estava livre para os atletas – já que a RP Mobi interditou 42 quilômetros de vias – e a estrutura do evento estava organizada como poucas vezes já se viu.
Reflexo do sucesso é que, nas redes sociais, é possível observar diversos posts sobre o evento provenientes da organização e dos participantes, e choveram comentários elogiosos (embora, vale ressaltar, alguns corredores tenham reclamado da escassez de pontos de água).
Fato é que, já na segunda-feira, todo o encanto desapareceu. Na verdade, o que encontraram no transporte público de Ribeirão (cuja responsável é a mesma RP Mobi) foi a velha realidade de sempre: superlotação, atrasos e calor. Só em 2025, segundo levantamento da própria empresa, foram registradas mais de 2 mil denúncias contra o transporte público de Ribeirão Preto.
Para além do transporte público, há ainda outros problemas graves que persistem na cidade, cuja resolução deveria ser de responsabilidade da empresa que supostamente atua em nome do interesse público.
Nesse sentido, a ausência de sinalização adequada (reclamação recorrente da população) e de fiscalização, entre outros problemas, gera consequências trágicas. Hoje, o número de agentes de trânsito na cidade é mais de sete vezes menor do que o recomendado pelo Senatran. O resultado? Em 2025, segundo relatório do Infosiga, foram 2038 acidentes, 86 mortes no trânsito, e gastos com sinistros que ultrapassam 179 milhões de reais, somando custos de saúde, atendimento de emergência, danos materiais e perda de produtividade.
A observação desse profundo contraste suscita um incômodo, porém necessário, questionamento: Por que a eficiência estatal de Ribeirão escolhe o dia e a hora para aparecer?
A gestão movida a “likes”
Para qualquer cidadão brasileiro, já não se sustenta mais a ideia de um Estado benevolente garantidor do “bem-estar social”. Atualmente, a forma como os economistas e estudiosos políticos entendem as ações dos governantes é meramente um reflexo do que se percebe há muito tempo pela população: como qualquer outra pessoa atuando em sua vida privada, o político é egoísta. Do mesmo modo como nós agimos para promover nosso próprio bem-estar, ele age para aumentar seu capital político e angariar votos.
Tal constatação não poderia ficar mais evidente para o cidadão ribeirão-pretano. Por aqui, a prefeitura investe sem hesitar para promover e dar suporte à maratona, que gera manchetes positivas, fotos, posts no Instagram, e toda a visibilidade que aumenta a popularidade da prefeitura.
Melhorar o transporte público, assim como evitar as 86 mortes, por outro lado, é caro, demorado, gera conflitos, e crucialmente, é percebido pela população – e com razão – apenas como uma obrigação. Quantas são as fotos bonitas que dá para tirar na linha de chegada de uma maratona? E em um terminal de ônibus às 18:00?
Pois é.
“Falta de recurso”: será mesmo?
O que mais frustra aqueles que observam a gestão municipal não é a incompetência, é a seletividade da competência. Ao interditar quilômetros de vias e mobilizar tantos agentes de trânsito em um domingo, os responsáveis pelo transporte na cidade fazem uma escolha cruel.
Se, como vimos, o efetivo já é sete vezes menor que o ideal, a decisão de concentrar praticamente toda a força de trabalho disponível em um evento festivo significa, na prática, deixar o restante da cidade e seus pontos críticos completamente desguarnecidos.
O que a teoria econômica nos ensina é que, se os recursos são escassos, sua gestão é uma questão de prioridade. Se, em Ribeirão, a prefeitura (ou a empresa para qual a prefeitura terceiriza o serviço) tem a inteligência logística para coordenar uma operação complexa, ela prova que sabe como fazer. Isso nos leva a pensar que talvez o problema seja de foco, e a negligência com o dia a dia seja menos “estrutural” e mais intencional.
Enquanto o maratonista é tratado como cliente, o trabalhador que pega o ônibus para ir ao trabalho é percebido como usuário cativo do transporte, e por isso é tratado como gado. Isso gera a situação em que o recurso é alocado para a “vitrine” da cidade, enquanto quem paga a conta segue abandonado e correndo riscos.
Conclusão
De maneira nenhuma a existência da maratona por si só é um problema. Esse tipo de evento promove a saúde da população, atrai o turismo, e gera riqueza para a cidade. No entanto, toda a discussão promovida neste artigo vai além da própria maratona. É uma reflexão crítica sobre prioridades, alocação de recursos e incentivos.
Em suma, o fato é que enquanto os eventos “instagramáveis” forem priorizados em relação aos serviços básicos, nossa cidade seguirá a onda de atraso populista do Brasil: um país em que prefeitos preferem shows sertanejos a saneamento básico, maratonas à dignidade no trânsito, seguidores à vida real.



