Adultização e a cultura dominante

A adultização das crianças é apenas um sintoma de um problema maior: uma cultura dominante que normaliza pornografia, ostentação e crime como modelos de sucesso. O texto analisa como essa hegemonia molda consciências e alerta para a urgência de uma contracultura mais humana, ética e digna.
Adultização e a cultura dominante

Nos últimos anos, muito se tem falado sobre a chamada “adultização das crianças” na internet. Vídeos virais, como os produzidos por Felca, escancararam o que ocorre nos submundos digitais. No entanto, reduzir esse debate a memes ou a indignações pontuais é um erro. O que estamos presenciando faz parte de uma trama muito maior: um projeto cultural que normaliza a pornografia, a ostentação e transforma influenciadores em novos gurus espirituais da juventude.

Não se trata apenas de entretenimento. Trata-se de engenharia social.

No feed infinito das redes, meninas passam a sonhar em se tornar influenciadoras, enquanto meninos almejam ostentar como “tigrinhos” de apostas esportivas. O crime organizado apresenta um modelo de ascensão social — carros de luxo, viagens e poder — muito mais rápido do que qualquer universidade ou emprego formal. Paralelamente, plataformas como o OnlyFans convertem a exposição íntima em promessa de fortuna.

A cultura dominante atual é a mistura desse suco tóxico: pornografia como trampolim, ostentação como símbolo de status e crime como caminho para o respeito social. Uma menina que enriquece vendendo sua imagem torna-se celebridade; um funkeiro que canta sobre armas vira ídolo; um guru de apostas digitais é seguido como um messias. Este é o novo panteão da sociedade do espetáculo.

Esse cenário não surge do nada. Organizações internacionais, como a Open Society, despejam centenas de milhões de dólares em iniciativas que, sob o discurso de liberdade e inclusão, acabam normalizando a lógica do crime e da degradação social. Recursos estrangeiros financiam redes culturais enquanto, em paralelo, o crime organizado encontra nesses mesmos circuitos — shows, eventos e publicidade digital — formas eficientes de lavar capital.

O resultado é uma cultura globalizada que combina pornografia, crime e consumo, empurrada como modelo aspiracional para milhões de jovens. A política cultural brasileira, historicamente frágil, assiste passivamente à consolidação de uma hegemonia que não apenas entretém, mas molda consciências.

O que está em jogo não é moralismo nem simples conservadorismo. É a constatação de que a sociedade clama por uma cultura dominante mais humanizada, capaz de oferecer exemplos de pertencimento sem recorrer à lógica do crime ou à exposição do corpo como mercadoria.

É preciso diversificar o cenário cultural por meio do incentivo a práticas que unam espiritualidade, ancestralidade e ética social. Culturas que ofereçam mais do que entretenimento: que promovam pertencimento, solidariedade e dignidade.

Enquanto pornografia e crime seguem de mãos dadas, vendendo sonhos de ascensão imediata, cabe ao Estado, à sociedade civil e até ao empresariado compreender que investir em cultura não é gasto, é sobrevivência. Sem uma contracultura humanizada, o que resta é a celebração do vazio.

A adultização é apenas a ponta do iceberg. O problema central é a banalização da degradação como projeto de vida — um ecossistema onde a ostentação criminosa e a pornografia são tratadas como vitórias sociais. Se o Brasil deseja outro futuro, precisará frear o financiamento dessa hegemonia e abrir espaço para uma nova cultura dominante: mais humana, mais justa e mais verdadeira.

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