A banalização dos “ismos”: fascismo, nazismo e racismo

O uso indiscriminado de termos como fascismo, nazismo e racismo transformou conceitos históricos graves em simples ofensas políticas. Ao banalizar essas palavras, esvazia-se seu significado e enfraquece-se o combate real a ideologias e práticas que, de fato, representam ameaças à sociedade.
A banalização dos “ismos”: fascismo, nazismo e racismo

No início desta semana, o ator Wagner Moura ganhou o Globo de Ouro pelo filme O Agente Secreto. Em seu discurso, chamou Jair Bolsonaro de fascista. Não entrarei no mérito do discurso em si — embora considere que a política poderia ter ficado fora daquela ocasião. O foco aqui é outro: a mania contemporânea de chamar qualquer adversário político de fascista, nazista ou de rotular tudo como racismo.

Comecemos pelo fascismo, que deu origem a este texto. É evidente que muitas das pessoas que rotulam todos os seus opositores como fascistas não sabem, de fato, o que foi o fascismo. Ele não foi apenas uma ideologia abstrata; tratava-se de uma estrutura política concreta, profundamente ligada ao Estado e à figura de um líder centralizador.

O fascismo era ultranacionalista, totalitarista, militarista, corporativista, antiliberal, antidemocrático e anticomunista, sustentado pelo culto a um líder forte. Utilizava propaganda e mitos como ferramentas para manipular a população. Fascista, portanto, é quem reúne todas essas características. Vale lembrar: a direita, em sua essência, não é corporativista, antiliberal ou antidemocrática. Há pessoas totalitárias em ambos os espectros políticos.

Passemos ao nazismo. Surgido aproximadamente na mesma época do fascismo, o nazismo também possuía uma estrutura estatal, mas tinha como eixo central o racismo, especialmente o antissemitismo. Para os nazistas, apenas a chamada “raça ariana” era considerada pura e digna de existir.

O nazismo era ultranacionalista, totalitarista, antidemocrático e anticomunista, assim como o fascismo. Contudo, distinguia-se por ser explicitamente racista, antissemita e eugenista. Ambas as ideologias defendiam a eliminação dos adversários e a proibição do diálogo com eles, criando um isolamento social que impedia seus seguidores de perceberem as falhas e contradições desses regimes.

Nos dias atuais, também se fala em nazifascismo, termo que combina elementos das duas ideologias: ultranacionalismo, totalitarismo, militarismo, anticomunismo, antiliberalismo, corporativismo, racismo e culto ao líder forte. Quem reúne todas essas características pode ser classificado como nazifascista, assim como quem apresenta os elementos centrais do nazismo pode ser chamado de nazista. Um ponto fundamental: não existe nazismo sem antissemitismo.

Para parte da esquerda, incluindo figuras públicas como Wagner Moura, todos os adversários políticos são fascistas, nazistas ou, em versões mais radicais, nazifascistas. O problema é que isso simplesmente não corresponde à realidade. Poucas pessoas, de fato, seguem essas estruturas ideológicas completas. Ainda assim, os termos foram banalizados e passaram a ser usados como ofensas políticas, e não como conceitos históricos e analíticos.

Quando tudo vira nazismo ou fascismo, nada mais o é. O mesmo fenômeno ocorreu com o racismo. Houve um período em que as pessoas se preocupavam genuinamente em não cometer atos racistas. Com o tempo, porém, tudo passou a ser classificado como racismo: a matemática, o clima, absolutamente tudo. Quando tudo é racismo, o termo perde força, e a luta contra o racismo real se enfraquece.

O racismo foi banalizado ao ser aplicado indiscriminadamente. Agora, o mesmo está acontecendo com o fascismo e o nazismo. Isso é extremamente perigoso. Ao banalizar conceitos tão graves, retiramos deles o peso histórico e moral que possuem, enfraquecendo o combate legítimo a essas ideologias. Não podemos permitir que isso aconteça.

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